Os hospitais que nunca se digitalizaram podem chegar lá primeiro
Traduzido do inglês. Ler o original

Este texto tem relação com a minha visita a Bagdá em outubro de 2025, a convite da Delegação do CICV no Iraque e do Ministério da Saúde iraquiano, para avaliar a assistência à saúde no país.
O que mais lembro é o medo. Os pronto-socorros iraquianos são disciplinados demais para o pânico; era algo mais silencioso e mais difícil de ver. Os médicos assistentes carregavam um volume de pacientes que derrubaria a maioria dos seus colegas ocidentais. Eles sabiam como era um bom atendimento, e sabiam que nem sempre conseguiam oferecê-lo. Dava para ver esse mesmo saber nos pacientes, que chegavam ao pronto-socorro como quem recorre a uma última saída, esperando ser atendidos e meio que contando com o contrário. O hospital não parecia um lugar feito para curar as pessoas. Parecia um ambiente onde você poderia adoecer, e o pronto-socorro era a última esperança de um pequeno milagre.
Levei dias para entender que ninguém naquela sala estava falhando. Os profissionais eram excelentes. Os pacientes faziam a única coisa racional ao seu alcance. Eu estava vendo um sistema não otimizado, sangrando dinheiro sem motivo, com médicos cujo crescimento era limitado pelas ferramentas e não pelo talento, tratando pacientes privados de um cuidado que já existia. Só que não para eles, naquela sala, naquele dia.
Passei alguns dias em Bagdá em outubro de 2025, a convite da delegação do CICV no Iraque e do Ministério da Saúde do Iraque, avaliando quatro dos principais hospitais da cidade. A pergunta do Ministério era prática: como digitalizar um sistema nacional de emergência, a um custo acessível, sem quebrá-lo? Escrevi um relatório. Relatórios são lidos por um punhado de pessoas e arquivados. Esse me parece o destino errado para este relatório, menos porque minhas respostas estavam certas e mais porque o problema pertence a muito mais gente do que quem está na lista de distribuição. Então o deixo aqui, em público, onde ele pode ser contestado.
O cartão de papel
A história fácil sobre um sistema de saúde baseado em papel é que ele está atrasado. Essa história está errada, e o jeito como ela está errada importa.
Um pronto-socorro como o do Hospital Universitário Al-Yarmouk atende de 500 a 800 pacientes por dia. Num plantão qualquer, dois a quatro médicos seniores supervisionam cerca de quarenta profissionais. O instrumento que mantém tudo isso de pé é um único cartão, frente e verso: caixas de seleção de sintomas organizadas por sistema orgânico, uma grade de sinais vitais, diagramas anatômicos para marcar ferimentos e queimaduras, espaço para anotações e prescrições. Um médico o preenche em uns trinta segundos sem tirar os olhos do paciente.

Cartão de paciente do pronto-socorro iraquiano (frente)
Pense no país que mais se digitalizou. Um estudo de tempos e movimentos de 2016, publicado no Annals of Internal Medicine, mostrou que médicos americanos passavam quase duas horas no prontuário eletrônico e em trabalho burocrático para cada hora de atendimento cara a cara com o paciente, e ainda faziam mais disso em casa, depois do turno. Atul Gawande construiu um ensaio inteiro na New Yorker, “Why Doctors Hate Their Computers”, em torno do que isso fez com a profissão. A sobrecarga de documentação é hoje uma das causas mais bem documentadas do burnout entre médicos americanos. Os médicos de Bagdá carregam muitos fardos. Digitar não é um deles. Como interface entre um médico e um paciente, o cartão de papel iraquiano é melhor do que a maior parte dos softwares que já usei em hospitais ricos. Aí a consulta termina e o cartão vai para um depósito.
O tamanho das perdas
Estive naquelas salas. Milhares de prontuários em caixas e prateleiras, arquivados por nome na teoria, irrecuperáveis na prática. A equipe foi franca comigo: encontrar uma ficha específica não é viável. Quando se tenta mesmo assim, leva quarenta e cinco minutos ou mais, e em geral não dá certo. Então todo paciente que volta é um paciente novo. Médicos do Al-Yarmouk e da Cidade Médica de Bagdá me disseram que tratam pessoas, rotineiramente, sem saber dos diagnósticos anteriores, dos medicamentos em uso, das alergias registradas ou dos resultados anteriores. Se o paciente não consegue contar a própria história, porque está confuso ou inconsciente, essa história não existe. Essa conta pode ser feita, e na minha avaliação eu tentei fazê-la.
Um painel básico de exames de sangue custa cerca de US$ 15. Estimei que entre um quarto e um terço dos exames laboratoriais nesses serviços são duplicados, exames já feitos e pedidos de novo porque o primeiro resultado está numa caixa que ninguém consegue abrir. O laboratório funciona só com nomes, sem número de requisição e sem rastreamento. Os resultados são entregues aos pacientes ou aos familiares, que os levam de volta pelo hospital, e os diretores de laboratório me disseram que 10 a 15 por cento nunca chegam ao médico que pediu o exame. O laboratório precisa de duas a quatro horas para fazer um exame. O médico muitas vezes espera de quatro a seis para vê-lo. A diferença não é a medicina; é perda de informação, paga em permanências prolongadas e decisões atrasadas.

As farmácias fazem pedidos com base nos palpites do ano anterior porque ninguém acompanha o consumo, e assim a insulina acaba num hospital enquanto 15 a 20 por cento dos medicamentos vencem sem uso em outro. A vigilância epidemiológica é compilada à mão no fim do mês e chega ao Ministério duas ou três semanas depois. Um diabético que passa por três hospitais é contado como três casos. Um surto de cólera aparece como um vago aumento de “diarreia”, semanas depois do momento em que ainda era possível contê-lo.
Nos 281 hospitais públicos do Iraque, minha estimativa chegou a algo entre US$ 900 milhões e US$ 1,3 bilhão por ano perdidos em falhas de coordenação. Algo como 11 a 15 por cento dos gastos do país com saúde, consumidos sem comprar saúde nenhuma.

Estimativas anuais de desperdício em saúde com base em dados do Banco Mundial e em pesquisas da OCDE
Seria confortável, lendo isto em Boston ou Londres, arquivar o assunto como uma história sobre o Iraque. Os números dizem outra coisa. Pesquisadores que escreveram no JAMA em 2019 calcularam o desperdício anual na saúde americana entre US$ 760 e US$ 935 bilhões, um quarto de todo o gasto em saúde dos EUA, e apontam a falha na coordenação do cuidado como uma das causas. A OCDE estima que cerca de um quinto dos gastos em saúde nos países ricos não compra nada de valor. É a mesma doença, com um custo três ordens de grandeza maior, e com computadores em todas as mesas. O sistema do Iraque esquece no papel. A maioria dos sistemas do mundo esquece caro, em telas.
Por que a solução continua falhando
A prescrição automática é comprar um prontuário eletrônico, instalar terminais e treinar todo mundo. Isso já foi tentado, e fracassa do mesmo jeito em quase todo lugar.
O Iraque tentou implantar prontuários eletrônicos convencionais três vezes entre 2015 e 2022. As três tentativas foram abandonadas em seis a dezoito meses. A conta nunca fechou. Não dá para pedir a um médico responsável por mais de cem pacientes num plantão que passe de cinco a dez minutos por paciente no teclado; a produtividade caía de 30 a 50 por cento sempre que se tentava. O National Programme for IT do Reino Unido, o projeto civil de tecnologia mais ambicioso já tentado, foi desmontado em 2011 depois de consumir cerca de 10 bilhões de libras. Os Estados Unidos impuseram a adoção com uns US$ 35 bilhões em incentivos da Lei HITECH e venceram, em certo sentido. O prêmio foi a estatística das duas horas de digitação citada acima e uma crise de burnout que o país ainda está pagando.
Todos esses fracassos têm a mesma autópsia: a digitalização fracassa quando trata o fluxo de trabalho do médico como a coisa a ser substituída, em vez da coisa a ser protegida.
Isso muda a própria natureza da pergunta do Iraque. O Ministério não está diante de uma escolha entre papel e digital. O papel ganha à beira do leito e perde no nível do sistema; o digital convencional inverte essa troca. A pergunta real é se, em 2026, dá para ter os dois.

Distribuição regional de hospitais e capacidade de monitoramento: o sistema atual mostra uma distribuição desigual, sem visibilidade em tempo real (à esquerda). Uma rede nacional de troca de informações em saúde (HIE) permitiria ao Ministério da Saúde monitorar em tempo real o volume de pacientes, o uso de recursos e as lacunas de atendimento nas 18 províncias, apoiando uma alocação de recursos baseada em evidências (à direita).
O que o dinheiro no celular provou
Acho que dá, e meus motivos vêm do setor bancário, não da TI em saúde. Vinte anos atrás, o Quênia estava, por qualquer medida convencional, décadas atrás do Ocidente em termos financeiros. Em 2006, um quarto dos adultos quenianos tinha acesso a serviços financeiros formais. Então veio o M-Pesa: dinheiro transferido por mensagem de texto em celulares simples, por meio de agentes em vendinhas de esquina, pulando agências, cartões e toda a estrutura institucional do Ocidente. Em 2021, a inclusão financeira no Quênia tinha chegado a 84 por cento, e a maior parte do PIB do país hoje circula por dinheiro no celular. A Índia fez a mesma jogada com mais de um bilhão de pessoas. O UPI, lançado em 2016, hoje processa mais de vinte bilhões de transações por mês, quase metade de todos os pagamentos instantâneos do planeta, enquanto boa parte do Ocidente ainda espera dias para uma transferência bancária ser compensada. Nenhum dos dois países alcançou o modelo ocidental. Os dois o pularam e chegaram a um lugar aonde o Ocidente ainda não chegou.
Estar atrasado acabou sendo uma forma de liberdade. O Quênia não tinha um sistema de agências bancárias estabelecido e em posição de se defender. O Iraque não tem uma indústria de prontuário eletrônico estabelecida, nem uma cultura de documentação movida pelo faturamento, nem cinquenta anos de regulação acumulada em torno dos prontuários. E a tecnologia que torna possível outro caminho acabou de chegar. Os prontuários eletrônicos corporativos das últimas duas décadas foram construídos sobre uma premissa: a única forma de colocar informação num computador é fazer um humano digitá-la. Na era da IA, essa premissa está obsoleta, e os sistemas construídos sobre ela também. Os modelos atuais conseguem ler um formulário fotografado, incluindo letra apressada e escrita árabe, e ferramentas de IA ambiente já escrevem notas clínicas a partir de conversas dentro de grandes sistemas de saúde americanos. A digitação, o que matou todas as tentativas anteriores, não é mais necessária.
Por isso, a abordagem que propus ao Ministério inverte a contabilidade de costume. O sistema atual é a despesa; ele perde mais a cada ano do que custaria uma transformação. Desenhe a transição em torno da menor resistência, não da tecnologia máxima. Mantenha o cartão de papel de trinta segundos exatamente como é. Fotografe-o. Deixe a IA extrair os dados em segundo plano para um registro nacional, com um identificador único ligando as consultas de uma pessoa em todos os serviços. O dia do médico não muda. O sistema, pela primeira vez, lembra.
Há um motivo estrutural para que isso ande mais rápido no Iraque do que em quase qualquer outro lugar. O Ministério administra diretamente todos os 281 hospitais públicos, uma arquitetura mais próxima da escandinava do que do mercado fragmentado americano. Um modelo que funciona não precisa ser vendido de novo para mil compradores independentes; pode se espalhar pelo sistema inteiro por decisão. E o mesmo modelo viaja: para a Jordânia, para o Líbano, para o Iêmen, para qualquer país com fluxos clínicos fortes e infraestrutura de informação fraca. Ou seja, a maioria dos países.
O que eu não sei
A história do dinheiro no celular tem um viés de sobrevivência, e dado de saúde não é dado de pagamento. Preciso dizer com clareza o que poderia afundar essa ideia.
Uma transação é simples e se verifica sozinha. Um prontuário não é nem uma coisa nem outra. A extração por IA a partir de cartões manuscritos vai cometer erros, e uma alergia errada num banco de dados pode ser pior do que não ter banco de dados nenhum. Prontuários levantam questões de governança que o dinheiro no celular nunca enfrentou: quem os vê, quem os protege, o que um vazamento significa para a segurança de um paciente num Estado afetado por conflitos. A rede elétrica do Iraque é instável. Os hospitais estão no limite. A saúde global está cheia de projetos-piloto que funcionaram lindamente em dois hospitais e morreram em silêncio em vinte. E meus números de custo se apoiam em parte em entrevistas com equipes e na literatura publicada, não em dados auditados; eu os marquei como estimativas no relatório e os marco do mesmo jeito aqui.
A abordagem que descrevi é uma hipótese. Pode precisar de uma revisão séria. Pode estar errada. Eu fiz o trabalho, e é por isso que estou escrevendo sobre ele, mas isso é diferente de dizer que resolvi o problema.
O que eu defenderia sem ressalvas é menor e mais sólido. A restrição que de fato limita o atendimento de emergência no Iraque, e de formas mais sutis em quase todo lugar, não é a habilidade clínica e, em grande parte, não é o dinheiro. É a ausência de memória, e essa ausência tem um preço que se conta em exames duplicados e insulina vencida. A lição de toda digitalização fracassada é proteger o fluxo de trabalho do médico. E, pela primeira vez, existe tecnologia para atender a essas duas verdades ao mesmo tempo. Os países com menos legado são os que têm mais espaço para usá-la.
Continuo pensando no medo que vi naqueles médicos assistentes. Não era medo da própria capacidade. Eles conseguiam ver, a cada plantão, os médicos que poderiam ser dentro de um sistema que funcionasse, do mesmo jeito que um paciente naquela sala conseguia ver que o cuidado existia em algum lugar, para outra pessoa. Fechar essa distância não tem mistério. É sobretudo uma questão de deixar um sistema lembrar o que a sua própria gente já sabe. Alguém vai demonstrar esse salto na medicina de emergência como o Quênia demonstrou no dinheiro, e eu não apostaria contra isso acontecer num lugar que o mundo já descartou como atrasado.
Este ensaio se baseia numa avaliação de campo que conduzi em Bagdá em outubro de 2025, com o apoio da Delegação do CICV no Iraque e do Ministério da Saúde iraquiano. Números externos citados: Sinsky et al., Annals of Internal Medicine (2016); Shrank et al., JAMA (2019); OCDE, Tackling Wasteful Spending on Health (2017); Gawande, The New Yorker (2018). As opiniões e os erros são só meus.